Duas crônicas de Gianfrancesco Guarnieri

Publicado por em out 29, 2014 | 0 comentários


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Gianfrancesco Guarnieri é italiano, nascido em Milão, no dia 6 de Agosto de 1934. Imigrou ainda criança para o Rio de Janeiro com os pais que fugiam do regime fascista. Edoardo de Guarnieri, o pai, era maestro e Elza Martinenghi Guarnieri, a mãe, era concertista de harpa. O garoto sempre mostrou interesse em teatro e política.

Crônica - O Engraxate

O ENGRAXATE Cem Gramas era miúdo e transparente, daí o apelido. Corria sobre duas pernas longas e finas em desproporção com o corpinho mirrado. Arrastava sua caixa de engraxate por seu barbante comprido e ensebado. A caixa era seu trem e, às vezes, automóvel, navio, até mesmo avião. E corria pelas ruas, a caixa atrás, saltando batendo, lascando-se no calçamento. Era seu instrumento de trabalho, brinquedo e cofre. Lá dentro, de mistura com latas de graxa: escova e flanelas, as riquezas de Cem Gramas: um punhado de figurinhas, selos do Correio Nacional, uma caneta tinteiro sem pena, três bolinhas de gude, duas tiras de papelão ondulado, um “bob” de enrolar cabelo, uma faquinha de lâmina partida. Já perdera muitos fregueses por ficar absorto, manuseando a tralha, enquanto outros engraxates, mais vivos, tomavam conta do cliente. Em verdade, raras vezes Cem Gramas conseguia o serviço. Na disputa pelo trabalho, levava sempre a pior. Bastava um empurrão, de leve, para deixar Cem Gramas sem ação, vencido, choramingando. O que levava para casa era fruto de caridade. Gente que se compadecia e, sem usar de seus préstimos, lhe atirava alguma nota miúda. Cem Gramas não o talento de alguns dos companheiros. Tuíra, o negrinho, atraía o freguês compondo sambas na hora, engraxando e batendo o ritmo na caixa; Miguelzinho utilizava com habilidade um sorriso gostoso de moleque maroto; Bentinho sabia enaltecer a superior qualidade do material que usava; Jamegão contava piadas incríveis; Rui Barbosa entretinha o freguês falando sobre política, com toda autoridade dos seus sete anos. Cem Gramas não fazia nada. Podia atrair despertando compaixão, mas não se dava ao trabalho. O que conseguia não era por mérito. Não descobrira ainda a indústria da piedade. Distraído, boca sempre aberta, olhos arregalados numa admiração constante, deixava-se viver, muito só, resignado, descobrindo as coisas do mundo, uma a uma, com moderado interesse. Sabia que voltando à favela com pouco ou sem dinheiro levaria uma surra dolorida, raivosa. O pai – se era pai mesmo ninguém sabia – não se dava bem com o trabalho e quase sempre folgava, embebedando-se desde cedo. A mãe, mulher coitada, com dores, cuidando como podia de um barraco em ruínas e do nada que tinha. Trabalho mesmo era dos pequenos, cinco crianças magras e largadas, entre elas o Cem Gramas. Dois engraxavam e três vendiam coisas: pentes, barbatanas e flor. O negócio estava em processo de ampliação. Tinha os fornecedores, os intermediários e a mão-de-obra, miúda e doentia. Diziam com orgulho trabalhar no comércio. Temendo a pancada, arrumavam-se todos de forma que o rendimento das vendas nem sempre era considerável. E daí, que o maiorzinho – Julito – já estava adquirindo fama de punguista. Cem Gramas é que não tomava jeito. Resignando-se, cada vez mais, às surras, não se importava muito com o dinheiro, mesmo porque não lhe conhecia o valor. Mas de tanto apanhar acabou por perder dois dentes e a dor foi aguda. Acabou por compreender o que se exigia dele e resolveu atender o pai. Mas dinheiro não vinha que não sabia criar habilidade. Foi quando recebeu a proposta de Juvenal, o Mais-que-Deus [o apelido provinha da extrema vaidade e prepotência di dito0.O que tinha a fazer era simples: postar-se na estrada e na aproximação de alguém chorar e simular fortes dores pelo corpo. Achou fácil e até engraçado e, lá pelas dez horas, foi pra estrada e fez tudo como combinado. O primeiro passante não caiu no conto, nem o segundo e terceiro, mas o quarto, um senhor já, acudiu o menino, levando-o para a margem da estrada. De um salto, Mais-que-Deus fez o serviço. E, no fim do dia, depois de se repetir o jogo, foi feito o balanço. Oito contos e trocados, relógios, dois anéis, dois chaveiros, as peças de um caminhão e um morto. Cem Gramas ganhou mil cruzeiros em notas de duzentos. Preferia os anéis, ou mesmo os chaveiros. Mais-que-Deus não quis saber: – Fica com isso, isso é que serve. Dá uma nota dessas pro teu velho, uma só. Gasta o resto. Depois vem mais. E só… Passou os dedos nos lábios impondo segredo. E Cem Gramas obedeceu. Deu uma nota de duzentos para o pai e naquele dia não apanhou. Andou de táxi e teve muita alegria. Perdeu uma das notas e guardou a outra numa caixa de engraxate. A noitinha saiu à cata de Mais-que-Deus, procurando serviço. Última Hora, sexta-feira, 14 fev. 1964, p.2, UH-Revista.

Crônica - O Sindicato

O SINDICATO Era uma cidade pacata onde havia gente que na alta do café acabara de ganhar, numa tacada, um bilhão de cruzeiros. Por isso, o luxo do clube, os jardins cuidados com fontes luminosas e as casas de formas novas junto aos velhos casarões de outro tempo. O delegado foi à janela e observou os homens que armavam o palanque em frente à igreja. A janela enfeitara-se com capricho. Bandeirolas coloridas, cordões com lâmpadas também de cor e grandes faixas saudando a fundação do Sindicato Rural. Levantando o pó da estrada, aos grupos, chegavam os camponeses para a festa. Homens de quilômetros além. Alguns ainda sujos de terra, enxada ao ombro, outros, de moradia próxima, melhor arrumados. Vinha até mesmo gente de botina. E um tal de terno branco e gravata vermelha, todo em aprumo. Chegavam e formavam rodas nos cantos da praça. Alguns vivas dos mais entusiastas ao sindicato em fundação. Bem uns trezentos homens ocupando a praça principal, defronte à igreja. O delegado coçou o queixo apreensivo. Culpa era dele que permitira o comício. Pior; ordem por escrito, com sua assinatura. Não adivinhara que o fato irritasse tanto a “seo” Francisco e outros amigos seus. Saiu à rua. O que mais o intrigava era a ausência do pessoal do fazendeiro. “Seo” Francisco fora claro: – Deodato – dissera – esse tal de sindicato vai nascê morto que aqui não vinga não. Ocê faz o favor de acaba com o assanhamento. Se houver teima meus home acaba com a folia. Me faz esse favor que assim ocê conserva o posto. O latifundiário não fora nada sutil. No entanto, até naquele instante nem sombra dos capangas. Pelo trem da manhã chegara o representante da União dos Lavradores, a entidade nacional; coisa de perigo. Falavam na chegada de jornalistas. Um professor da cidade vizinha lá estava também. Homem interessado na alfabetização daquela gente. E era um lugar tão pacato… O delegado suava, temendo o resultado daquilo. Matutava na maneira de fugir do apuro. Respirou fundo e foi falar com o líder dos lavradores. Camponês magricela, de olhar maroto mal traindo a inteligência. Conversa vai, conversa vem, o homenzinho continuava irredutível. – Tá aqui a orde, escrita e assinada conforme a lei. Temo orde de fundá o Sindicato, aqui na praça. Tá tudo nos direito e vamo fundá. – Mas “seo” Francisco é homem duro, ele falou… – Problema seu, delegado. Obrigação sua é mantê a orde. Afinal quem é que manda, a lei ou os donos de terra? Deodato embatucou. O homem da União e o professor concordaram com o miúdo. A cabeça lhe doía, nas têmporas, como nunca doera antes. Então num repente, uma frota de peruas Kombi invadiu a praça com um buzinar irritante, acelerando ameaçadoramente os motores, passando rente ao camponeses atônitos. Vinham apinhadas de homens ostensivamente armados. As peruas cercaram as praças e os capangas desceram. E iniciaram a passeata da provocação, esbarrando propositalmente nos homens aturdidos, brincando com os revólveres, atirando-os para o ar, ofendendo, debochando, procurando a rixa. Os camponeses confabularam um momento, insensíveis à provocação. Depois, como um só homem, braço com braço, abandonaram lentamente a praça. Deodato esbaforido, segui-os com seus auxiliares que medrosamente procuravam esconder as armas, evitando a fúria dos asseclas do latifúndio. E os trezentos camponeses desarmados lá foram numa caminhada muda pelas ruas da cidade. Imediatamente, as peruas seguiram-nos, marcha lenta, num estranho corso. Não longe dali, os camponeses detiveram-se num terreno baldio, sem cerca, coberto de mato e lixo As peruas buzinavam e um capanga mais afoito atirou para o ar. Imperturbáveis, os lavradores comprimiram-se no terreno acanhado. O líder miúdo com um gesto chamou Deodato: – Pode ver que nossa intenção é boa e de paz. Evitamo arruaça na rua. Aqui é terreno particular, de meu cumpadre Jacinto que aqui está e não me deixa menti. Seu dever é proteger a propriedade privada que nisso de lei já tou tendo entendimento. Ponha seus home aí fora e dê proteção pra nós. Deodato não teve outro jeito. Postou os auxiliares trêmulos nos limites do terrenos e rezou para que nada acontecesse. Mas aconteceu. Fundou o Sindicato com discurso e tudo, apesar das buzinas. E os lavradores saíram, já então dispostos ao que desse e viesse. Não eram mais sozinhos, eram membros de um Sindicato de classe. E a jagunçada optou pela passividade. E assim está sendo feito. Última Hora, sexta-feira, 21 fev. 1964, p.2, UH-Revista. ere

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